Congresso em Foco

Surpreendido pela disparada, por longos minutos, da campainha do plenário, em uma cena de constrangimento registrada pela TV Senado, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) voltou à tribuna ontem depois de ter sido afastado do exercício do mandato entre 18 de maio e a última sexta-feira, quando recebeu decisão favorável do ministro Marco Aurélio Mello no último dia antes do recesso do Judiciário. Investigado pelo STF (Supremo Tribunal Federal), o tucano volta à Casa na condição de denunciado por corrupção passiva e obstrução de Justiça. Voltando a dizer que jamais cometeu crime, Aécio se disse vítima de armação supostamente orquestrada pelo “bandido” Joesley Batista, um dos donos da JBS e delator da Operação Lava Jato.
“Não obtive, em tempo algum, vantagem financeira em razão da política”, garantiu o senador, que avisou, antes de iniciar seu discurso, que não haveria apartes dos colegas. “Fui condenado sem qualquer chance de defesa.”
Gravado pedindo R$ 2 milhões a Joesley, Aécio foi denunciado pela PGR (Procuradoria-Geral da República) por corrupção passiva e obstrução de Justiça. Os relatos de que integrava esquema de corrupção levaram ao afastamento do senador também da presidência nacional do PSDB, posto ora ocupado pelo senador Tasso Jereissati (CE). O senador nega irregularidades e diz que o dinheiro serviria para bancar sua defesa na Lava Jato. Mesmo afastado do mandato, Aécio recebeu quase R$ 20 mil em junho.
A volta do tucano divide os holofotes do noticiário no mesmo dia em que o Senado votará um pedido de urgência para a votação da reforma trabalhista e o PMDB prepara a escolha do substituto de Renan Calheiros (PMDB-AL) na liderança de sua bancada.
O senador chegou ao Senado no início da tarde de ontem, e preferiu não comentar sua situação com a imprensa. Reuniu-se com seus companheiros de bancada no gabinete de Tasso Jereissati (CE), de onde saiu para fazer discurso em plenário. O pronunciamento foi acompanhado por tucanos e alguns poucos aliados, mas também por senadores que atuam em campo oposto ao do senador, como Roberto Requião (PMDB-PR).