sábado, 14 de fevereiro de 2026

Por que Bolsonaro ainda minimiza a importância das quarentenas

Uma das razões que sustentam a teoria de Bolsonaro: ele está no centro de um foco de covid-19 há três semanas e ainda se sente bem

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Bolsonaro: “Todos nós iremos morrer um dia”, disse o presidente recentemente (Foto - Ueslei Marcelino/Reuters)

Exame

 

Bolsonaro: “Todos nós iremos morrer um dia”, disse o presidente recentemente (Foto - Ueslei Marcelino/Reuters)

 

Durante a crise de coronavírus, que já matou 35 mil pessoas no mundo todo, Jair Bolsonaro tem realizado reuniões presenciais e pressionado brasileiros a voltar ao trabalho.

 

Não é um cálculo político. O presidente de fato acredita que a maior ameaça ao Brasil são as consequências econômicas, e não o próprio vírus, segundo duas autoridades próximas a ele. No domingo, Bolsonaro circulou por Brasília, onde conversou com grandes grupos de pessoas enquanto visitava lojas, restaurantes e mercados de rua.

 

“Bolsonaro é um homem muito intuitivo e essa intuição o levou à presidência”, disse o senador Major Olímpio, que conhece Bolsonaro há anos e teve papel importante na eleição de 2018. “Ele não se preocupa com divergências porque ele sempre viveu da divergência.”

 

Uma das razões que sustentam a teoria de Bolsonaro: ele está no centro de um foco de covid-19 há três semanas e ainda se sente bem.

 

“Depois da facada, não é uma gripezinha que vai me derrubar”, disse Bolsonaro dias atrás ao encerrar uma coletiva de imprensa. No domingo, em seu passeio por Brasília, disse a repórteres: “Essa é uma realidade, o vírus tá aí. Vamos ter que enfrentá-lo, mas enfrentar como homem, não como um moleque. Vamos enfrentar o vírus com a realidade. É a vida.”

 

“Todos nós iremos morrer um dia”, acrescentou.

 

(Bloomberg/Bloomberg)

 

Aumento dos casos

 

Embora o coronavírus tenha demorado a avançar no Brasil, os casos aumentam e especialistas em saúde alertam que o presidente pode ter perdido um tempo precioso para preparar o país. Muitos profissionais da área médica – e até o próprio ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta – concordam que o sistema público de saúde sofreria um colapso se as infecções acompanharem a explosão em outras partes do mundo.

 

“Defender que as escolas continuem funcionando num país em que é muito difícil isolar crianças de idosos representa um grande risco”, disse Vivian Avelino-Silva, infectologista e pesquisadora do Hospital Albert Einstein. “Não compreender isso, após semanas de crise, é preocupante.”

 

Bolsonaro e ministro da Economia, Paulo Guedes, acham que o Brasil estaria melhor se o vírus pudesse circular entre a população saudável, de acordo com uma pessoa com conhecimento direto do assunto. Bolsonaro e Guedes defendem quarentenas direcionadas para isolar grupos de alto risco. A assessoria de imprensa de Bolsonaro não retornou pedido de comentário.

 

Guedes, de 70 anos, passou as últimas semanas em seu apartamento no Rio de Janeiro, antes de retornar a Brasília para despachar na Granja do Torto, casa de campo da Presidência da República, já que o hotel onde morava em Brasília está fechado.

 

“Se as empresas não produzem, não pagam salários”, tuitou Bolsonaro na semana passada. “Se a economia entrar em colapso, os trabalhadores dos setores de serviços também não serão pagos. Precisamos reabrir o comércio e fazer todo o possível para proteger a saúde dos idosos e doentes.”

 

Cinquenta minutos de bicicleta

 

Bolsonaro disse que consultou vários integrantes do governo infectados, como o general Augusto Heleno, de 74 anos. O ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) está praticamente isolado desde que testou positivo, exceto por uma reunião de três horas no Palácio do Planalto na quinta-feira da semana passada.

 

“Perguntei: ‘General, o que você está sentindo?’”, disse Bolsonaro em live nas redes sociais. “E ele disse: ‘Nada. Inclusive acabei de fazer 50 minutos de bicicleta’.”

 

Bolsonaro não é o único chefe de Estado que pressiona para que as pessoas voltem ao trabalho. E ainda pode reverter sua postura como outros líderes o fizeram. No fim de semana, o presidente mexicano Andrés Manuel López Obrador disse que os cidadãos deveriam fazer compras em mercados públicos para apoiar pequenas empresas.

 

O presidente dos EUA, Donald Trump, também está ansioso para reabrir a economia, embora tenha recuado em tomar a medida até a Páscoa, atendendo aos conselhos dos principais médicos do governo dos EUA.

 

Bolsonaro também tomou medidas para liberar fundos para combater a crise e reforçar o sistema público de saúde. A pandemia foi declarada estado de calamidade, o que permite ao governo gastar além do estipulado no orçamento federal, além de transferir verbas para os estados, ajudar companhias aéreas e oferecer vales a trabalhadores informais.

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