quarta-feira, 11 de março de 2026

Diretor do Inpe diz que ‘embate’ com Bolsonaro tornou impossível permanência no cargo

Em entrevista ao G1, Ricardo Galvão diz que indicou cinco nomes para o ministro Marcos Pontes em reunião na qual sua exoneração foi decidida

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Jair Bolsonaro e o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles: críticas aos dados do Inpe sobre os alertas de desmatamento (Foto: Reuters/Adriano Machado)

G1

 

Ricardo Galvão afirma que sua fala sobre Bolsonaro 'gerou constrangimento' (Foto - Divulgação)

 

Ricardo Magnus Osório Galvão, diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), disse em entrevista ao G1 que indicou cinco nomes ao ministro de Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, logo após receber a notícia de sua exoneração nesta sexta-feira (2). Ele disse que o ministro se comprometeu a “não interferir na linha de trabalho” do instituto.

 

Galvão lembrou que tinha um mandato de quatro anos, mas que, apesar disso, o regimento prevê que o ministro pode substituí-lo “em uma situação de perda de confiança”.

 

O órgão que Galvão comandava foi acusado pelo presidente Jair Bolsonaro de mentir sobre os dados do desmatamento e agir a “serviço de alguma ONG”. Galvão rebateu as acusações e criticou falas e comportamento de Bolsonaro.

 

Galvão não quis informar os nomes indicados para preservar a escolha do ministro. Segundo ele, até a decisão final de Pontes, quem assume de forma interina é o pesquisador Petronio Noronha De Souza.

 

O diretor recebeu a notícia da própria exoneração em reunião na manhã desta sexta. No início da tarde, Pontes elogiou Galvão. “Agradeço, pela dedicação e empenho do Ricardo Galvão à frente do Inpe. Tenho certeza que sua dedicação deixa um grande legado para a instituição e para o país”, escreveu o ministro em uma rede social.

 

Jair Bolsonaro e o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles: críticas aos dados do Inpe sobre os alertas de desmatamento (Foto: Reuters/Adriano Machado)

 

Mais cedo, no pronunciamento em que anunciou sua própria demissão, Ricardo Galvão afirmou que não teve de “defender” os dados sobre desmatamento para o ministro.

 

Durante a tarde, servidores do Inpe protestaram contra exoneração de Galvão na frente da sede do órgão, em São José dos Campos (SP).

 

Aumento do desmatamento

 

Os alertas do desmatamento no Brasil registraram alta de 88% em junho e de 212% em julho, segundo análise feita com base em dados do públicos do Inpe, que foram compilados pelo sistema conhecido como Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter). Os percentuais levam em conta a comparação de junho e julho com os mesmos meses do ano passado.

 

Além de ganhar destaque no Brasil, o avanço do desmatamento foi noticiado pela revista “The Economist” e por outras publicações estrangeiras.

 

O governo afirma que a medição do Deter não deve ser usada para gerar percentuais e comparações mensais e que os dados consolidados de desmatamento são divulgados pelo Programa de Monitoramento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite (Prodes). O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, admitiu que há aumento no desmate e diz que vai licitar um novo sistema de monitoramento.

 

Especialistas rebatem o governo e afirmam que o Deter mostra a real tendência de aumento, com precisão de cerca de 90%. Argumentam ainda que as medições parciais do sistema sempre foram confirmadas posteriormente pelo Prodes em seu balanço anual.

 

Bolsonaro acusa o Inpe de mentir

 

No mês passado, após a divulgação do aumento expressivo dos alertas no sistema Deter, Bolsonaro acusou o Inpe de mentir sobre dados de desmatamento e de estar “agindo a serviço de uma ONG”. As primeiras declarações do presidente contrárias ao instituto foram dadas em 19 de julho, durante café da manhã com jornalistas estrangeiros.

 

As críticas do governo aos dados sobre o desmatamento continuaram, e nesta quinta-feira (dia 1°) Bolsonaro se voltou novamente contra o Inpe. O presidente defendeu uma apuração para identificar se os responsáveis pela divulgação dos dados sobre desmatamento agiram de má-fé.

 

“Acho até que, aprofundando os estudos, ver se as pessoas divulgaram de má-fé esses informes para prejudicar o governo atual e desgastar a imagem do Brasil”, disse Bolsonaro na quinta.

 

Logo após as primeiras declarações do presidente, Galvão declarou, em 20 de julho: “Ao fazer acusações sobre os dados do Inpe, na verdade ele faz em duas partes. Na primeira, ele me acusa de estar a serviço de uma ONG internacional. Ele já disse que os dados do Inpe não estavam corretos segundo a avaliação dele, como se ele tivesse qualidade ou qualificação de fazer análise de dados.”

 

 

 

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