quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Pelé, 80 anos: a ‘carreira artística’ do jogador no cinema, na música e nos quadrinhos

Além de aspirante a ator, Pelé também gosta de compor e cantar. Ele é autor de mais de 100 músicas e vendeu mais de 100 mil cópias de um álbum

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Pelé e Renato Aragão nas filmagens de Os Trapalhões e o Rei do Futebol, em 1986 (Foto: ACERVO PESSOAL – RAFAEL SPACA via BBC)

G1

 

Pelé e Renato Aragão nas filmagens de Os Trapalhões e o Rei do Futebol, em 1986 (Foto: ACERVO PESSOAL – RAFAEL SPACA via BBC)

 

Em 1986, 15 anos depois de ter parado de jogar pela Seleção Brasileira e 12 anos depois de ter deixado de vestir a camisa do Santos, Pelé voltou a pisar o gramado do Maracanã, o maior estádio de futebol do mundo.

 

No dia 20 de abril, ele participou das filmagens de “Os Trapalhões e o Rei do Futebol”, dirigido pelo experiente Carlos Manga (1928-2015), durante a final da Taça Guanabara.

 

No intervalo da partida entre Vasco e Flamengo, Pelé, Renato Aragão e um grupo de figurantes rodaram as últimas cenas do filme, diante de um público estimado de 121 mil torcedores. “A equipe de filmagem teve menos de 15 minutos para rodar aquelas cenas. Numa época em que não havia computação gráfica ou efeitos especiais, ainda mais no Brasil, essa foi a solução encontrada para dar aquele clima de final de campeonato, com estádio lotado e tudo o mais”, explica o jornalista Rafael Spaca, autor de “O Cinema dos Trapalhões – Por Quem Fez e Por Quem Viu” (2016).

 

Os Trapalhões e o Rei do Futebol estreou no dia 26 de junho de 1986, a três dias da final da Copa do Mundo do México, e foi assistido por 3,6 milhões de espectadores.

 

No filme, Pelé interpreta um repórter esportivo chamado Nascimento que, aos 35 minutos do segundo tempo, aceita jogar como goleiro para ajudar o fictício time do Independência Futebol Clube. Bom de bola, o repórter ainda marca um golaço ao cobrar o tiro de meta. Placar final: Independência 5 x 4 Gavião.

 

“Guardo duas recordações do set de filmagens. Na ocasião, os Trapalhões alugaram um trailer de primeira para oferecer todo o conforto possível ao Pelé. Quando soube que teria um trailer só para ele, agradeceu, mas dispensou. Queria ficar junto com todo mundo. Nas cenas de briga, Pelé ficava preocupado de não machucar os figurantes”, relata o humorista Dedé Santana que, por dispensar dublê, quebrou os dois pés logo no início das filmagens ao pular de uma árvore e teve que fazer o restante do filme com uma bota de gesso pintada de preto no filme com o rei do futebol, que completa 80 anos nesta sexta-feira (23).

 

Pelé e Ruriá Duprat no estúdio de gravação do álbum Peléginga, em 2006 — Foto: DIVULGAÇÃO

 

Talento imodesto

 

Aquela não foi a primeira vez em que Pelé atuou em um longa-metragem. A primeira participação de Pelé na tela grande foi no filme “O Rei Pelé”, de 1962, com direção de Carlos Hugo Christensen. O longa conta a trajetória de vida do menino nascido em Três Corações, passando por Bauru e Santos até conquistar o mundo como rei do futebol. Pelé foi interpretado por um menino durante a infância e por um rapaz para ilustrar a adolescência do rei. Tarefa difícil pois ambos não só tinham que guardar semelhança física com o rei, mas também serem bons de bola.

 

Mas a tabelinha do garoto que cresceu assistindo aos filmes da dupla Oscarito e Grande Otelo com o cinema não parou aí. Em 1971, fez uma participação especial no filme “O Barão Otelo no Barato dos Bilhões”.

 

Logo, vieram outros, como “Os Trombadinhas” (1979), de Anselmo Duarte; “Fuga para Vitória” (1982), de John Huston, e “Pedro Mico” (1985), de Ipojuca Pontes.

 

Na ocasião, a primeira opção do cineasta para o personagem-título, um típico malandro dos morros cariocas, foi o americano Sidney Poitier. Às voltas com sua candidatura para a Academia de Hollywood, o astro de “Ao Mestre, Com Carinho” (1967) declinou do convite.

 

Como precisava de um nome forte para projetar o filme internacionalmente, convidou Pelé depois de conversar com o veterano John Huston (1906-1987) em Nova Iorque.

 

“Pelé deu algum trabalho porque nunca foi um ator profissional. Mas era sensível, sincero e malandro para se sair bem. Trabalhamos para que ele não ‘interpretasse’, mas, sim, agisse naturalmente em cena. Ele foi correto e a coisa funcionou”, avalia o diretor.

 

Além dos filmes, Pelé participou também de documentários, como “Isto É Pelé” (1974), de Eduardo Escorel e Luiz Carlos Barreto, “Pelé Eterno” (2004), de Aníbal Massaini Neto, e “Cine Pelé” (2011), de Evaldo Mocarzel.

 

“Dos filmes em que atuei, o que me deu mais prazer e reconhecimento foi, sem dúvida, ‘Fuga para a Vitória'”, elege Pelé.

 

“Na época, jogava no Cosmos de Nova York e tive a chance de contracenar com Sylvester Stallone e Michael Caine. Se tivesse que me dar uma nota como ator, bem, acho que daria 10”, brinca o craque. Reza a lenda que, segundo o roteiro original, quem marcaria o gol de bicicleta na sequência final de “Fuga para a Vitória” seria Stallone. Mas, diante da dificuldade do astro de “Rocky, Um Lutador” (1976) de completar a jogada, ele teve que se contentar com o papel de goleiro.

 

Pelé e Maurício de Sousa em 1977, no lançamento da revista Pelezinho (Foto: ACERVO MSP via BBC)

 

A Turma do Pelezinho

 

Foram muitos os convites que Pelé recebeu ao longo dos anos. Para fazer filmes, gravar novela, lançar discos. O mais inusitado de todos aconteceu a bordo de um avião, entre Roma e São Paulo. O convite partiu do desenhista Maurício de Sousa, o “pai” da Turma da Mônica, em 1976.

 

Sua ideia era transformar o atleta do século em personagem de história em quadrinhos. Pelé topou na hora. Passado algum tempo, Maurício agendou uma reunião em Nova Iorque e levou uns esboços para Pelé aprovar. Com os desenhos em mão, o jogador franziu a testa. “Não gostou?”, perguntou Maurício. “O desenho está bonitinho, mas eu pensava que devia ser diferente”, gaguejou o jogador. “Diferente como?”, quis saber o desenhista. “Devia ser um atleta. Vitorioso, campeão…”, tenta explicar. “Pelé, a ideia não é essa. Criança gosta de brincar com criança”, argumentou. “Ah, não sei…”, coçou a cabeça, em dúvida.

 

Diante da indecisão do jogador, Maurício propôs um trato: levar os esboços para casa, mostrá-los aos filhos, Kelly Cristina e Edinho, e perguntar o que eles acharam. “Eu sabia qual seria a resposta e não deu outra. Os filhos do Pelé adoraram a versão infantil do pai e, assim, nasceu o Pelezinho”, orgulha-se Maurício que, para criar Cana Brava, Frangão e a turma do Pelezinho, colecionou histórias e mais histórias da infância de Pelé.

 

A revista do Pelezinho foi publicada de agosto de 1977 a dezembro de 1986. Desde então, só seria publicada em ocasiões especiais, como em 1990, por ocasião do aniversário de 50 anos do Pelé, e em 2012, às vésperas da Copa das Confederações do Brasil, em 2013.

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